domingo, 12 de abril de 2009

Carregadores de leite

Julho sempre era mais frio. Uma neblina arrastava os pensamentos para a terra dos meus ancestrais e tudo tinha um aroma de leite fresco. Lembro como hoje e lembrarei amanhã, do leite branquíssimo que eu levava com a dificuldade dos meus sete anos. Era uma grande responsabilidade, havia disputa escancarada dos mais novos, que perdiam o posto de carregadores de leite para aqueles com mãos mais fortes. Naquele dia, fui a escolhida e com muito orgulho observei a senhora gorda derramar o líquido branco na minha frente e no meu balde. Ela tinha um pesado andar e abria a porta com satisfação. Nela dizia: vende-se leite. Ainda sinto o forte cheiro em minhas mãos, aroma bom! Imagem boa, uma grande cachoeira para os olhos. Imaginava morar ali. Eram segundos de distração. No peito, o triunfo e nas mãos, o nervosismo. Os pés cambalearam nas ladeiras daquela cidade. Perto do cuscuz amarelo, o leite se fez. Missão cumprida! Fui brincar de queimada no meio das ruas de Santana...

7 comentários:

Paulinha Felix disse...

Que interessante, Ka! Fiquei imaginado várias coisas: Será que foi naquele período de recessão que rolou uma crise do leite? Será que era um resto de tempos bons, onde se podia comprar leite límpido e realmente de vaca? Que saudade de brincar de queimada (que eu chamava de queimado)!

Adorei, Kassinha!

zedafeira disse...

Que bom que você ainda conheceu o tempo em que a gente ia buscar o leite na casa do dono da vaca ou na vacaria, onde podíamos testemunhar a ordenha. hoje as vacas só fornecem leite para os supermercados. Sem história e sem poesia.

Belas lembranças, menina!

bjos

Acássia Deliê disse...

Que massa, Bu! Não sabia dessas suas histórias.. ^^

Vitória Régia disse...

Por que tenho a impressão que eu estava do outro lado do balcão ajudando a senhora gorda atender você? Ou que eu mesma já vendi leite para você?

Bjs
Vicki

Estêvão dos Anjos disse...

é incrível como na infância a gente sempre cria sobre algo simples uma coisa grandiosa. ah mas eu sempre tive preguiça de pegar o leite lá em Palmeira : X

Bárbara disse...

Eu não gostava de pegar o leite não. Tinha medo do seu Luiz, que vendia o leite na minha rua. Ele era casado e teve um filho que nasceu mais escuro que ele e a esposa e o bebê acabou morrendo meses depois. A criançada do bairro dizia que ele afogou o bebê no leite para que ficasse branco.

Ellen disse...

Muito bom... me trouxe lembranças boas, mas eu não sabia que pegar o leite era tão importante p a galera da sua idade....
Adorei os comentários tb...
Vc pegava leite em Salete era?