terça-feira, 19 de abril de 2011

Na cadeira de balanço

A lista de médicos especializados em gastroenterologia era imensa. Centenas de nomes desconhecidos na tela do computador. Como escolher? Pelo nome mais bonito, não seria uma boa opção. Escolhi aquele que tinha um consultório mais perto do meu bairro. A lista ainda era imensa. Então escolhi o primeiro médico do bairro Farroupilha, já que em vinte minutos chegaria lá.

A casa era pequena com indicações de aulas de yoga e acupuntura em um cartaz discreto. Não havia indicação do nome da doutora que marquei por telefone. Entrei mesmo assim. O piso de madeira chamou a atenção, será que funcionaria mesmo um consultório ali? Porém, o mesmo olhar de uma atendente impaciente confirmou o endereço. A decoração nem um pouco convencional para o costumeiro consultório branco gélido. O que me espantou ainda mais foi o cheiro agradável que identifiquei como vindo de algum incenso. Poucos minutos, a doutora chamou o meu nome.

Cabelos curtos, meia idade, uma brancura que contrastava com tatuagens coloridas. Pediu para acompanhá-la pelas escadas. Ao entrar o cheiro de incenso tomou ainda mais o ambiente. O piso ainda era de madeira, mas não encontrei nenhuma mesa de mármore (sempre é de mármore) que nos separasse. Na minha frente, duas cadeiras de balanço. Daquelas que cheguei a brincar quando pequena na casa de interior da minha vó. Ela sentou na minha frente e o silêncio foi quebrado com um aummmm que veio de fora.

-Sente-se, vamos conversar.
- Acho que não entrei no consultório certo.
- Você não procura um médico especializado em gastroenterologia?
- Sim. É que estranhei o ambiente.

Não apenas o ambiente. A conversa médico e paciente (ou seria de velhas desconhecidas) foi muito agradável. Indicações de flores no lugar de comprimidos para um futuro tratamento, nada de computadores e algo como hum rum..vou passar um exame. A doutora me conquistou. Quer dizer, a cadeira de balanço mais ainda...

segunda-feira, 21 de março de 2011

Em um curto espaço de solidão

E nesse curto espaço de solidão, por você, apenas por você, suportaria todos os dias solitários que de tão vazios, são incompreensíveis. Quando o olhar na janela pede um pouco de atenção aos transeuntes mudos. Momentos meus que viram metalinguagens grotescas de um único pensamento egoísta: o meu.

domingo, 6 de março de 2011

Barbaridade

- ei guria, cadê tua cuia?
- ouxii menina, não mangue de mim, mas não curto muito chimarrão.
- Bah! Por quê?
- Acho meio anti-higiênico. Passar de pessoa para pessoa e tal.
- Tá. Só que é servido muito quênte, tá? Você aquece a água, mâssss, sem deixar ferver, tá?
- Tá.
- Um, diz uma coisa guria, lá no Norte não faz frio né?
- Lá no Nordeste é calor o tempo todo.
- Tá. Não manga de mim, mas a tua terra é a do Collor né?
- Bah!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

....

E só de te ver eu penso em trocar
A minha TV num jeito de te levar
A qualquer lugar que você queira
E ir onde o vento for
Que pra nós dois
Sair de casa já é se aventurar

Nunca foi tão real.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Reflexões do sururu


(Eu, preparando o perfil para a pós-graduação sobre a líder comunitária da Sururu de Capote, Vânia Texeira, cheguei a uma reflexão)



Para os alagoanos (como eu)longe da comunidade, sururu é só no grito

Suruuuuuuuuuuuuuuu frescooooooooooooooooo

Sai da garganta da vendedora direto para os lares dos distantes.

Para os moradores da comunidade Sururu de Capote, é sinônimo de luta. E que luta...

“Lutar por ser humano é muito complicado”, Vânia Texeira, líder da (ex-atual) Favela Sururu de Capote.

Sururu como nunca antes visto

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Aceno

Singelas são suas palavras quando fingem o verdadeiro ser.
Deve ser porque você é um poeta que finge toda palavra quase pronunciada, quase escrita.

....


Tão simbólico gesto, assim pequeno, acolhe minha alma
Em uma verdade muda
Traduzida em, assim como suas palavras, um quase silêncio.
As palavras me escondem sem cuidado.


Manoel de Barros